Tempo tempo tempo tempo...
Vivemos no tempo da pressa. o tempo dos celulares e de falar com os amigos sem ter de esperar até o momento em que finalmente terão chegado em casa após o trabalho tempo de escrever por e-mail e de abrir quinze vezes a caixa para ver se chegara a resposta tempo de morrer de angústia se esta não chega até quando muito amanhã tempo em que se deve esquecer logo as dores porque a vida é curta amanhã será outro dia bola pra frente e a fila anda tempo das altas tecnologias descartáveis onde é melhor comprar logo o MP15 antes que saia o MP20 pois amanhã já serão outros tempos e será preciso mudar tempo de ler na minha tela que uma nova versão do Firefox já se encontra disponível e que em breve o suporte para a minha versão deixará de existir nesse site tempo de deixar baixando a tal versão nova enquanto engulo correndo o almoço a fim de aproveitar os minutos que restam para resolver o que não poderá ficar pra amanhã... hoje é o tempo da urgência.
Lembro o tempo em que esperar era bom. Foi nesse tempo que conheci o "Alemão".
"Alemão" era um brasileiro nascido em Florianópolis, surfista, loiro a perder de vista, que conheci numa viagem da adolescência. Nós éramos primas a passear no litoral, eles quatro amigos também estrangeiros naquela cidade. Nós, em viagem com a família, meninas ainda, no princípio da empolgação com a paquera, o desejo de liberdade, da maturidade e da independência. Eles, "garotos de praia", de férias de seus empregos, rostos brancos de creme, prancha debaixo do braço e "bora pro mar"! Ao menos pra mim, a personificação dessa liberdade!
Apesar das diferenças de idade e de vida, eu e Alemão ficamos amigos. Eles foram embora pra Floripa, nós voltamos pra nossa cidade. Comigo ficou o endereço do Alemão e uma parafina de prancha que ele me deu de presente. Com ele, o nome da minha rua, cidade e estado; o número da minha casa, meu CEP e minha amizade, num tempo em que não havia internet nem celulares, interurbano era caro (isto não mudou) e viajar para o outro lado do país estava fora de cogitação. Era o tempo da espera... e o tempo da espera era o tempo das cartas!
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Fui desde sempre uma amante das cartas. A paixão por elas começara antes do Alemão, quando uma amiga da escola mudara-se com a família para outra cidade, iniciando comigo uma troca de correspondências que durou um bom tempo. Naquela época, o ato de escrever uma carta, para meninas de pouca idade, significava uma escolha minuciosa do papel (dentre os chamados "papéis de carta" decorados que colecionávamos); da tinta da caneta que podia ser colorida, cheirosa, com ou sem glitter; do envelope; e, por vezes, de algum adesivo decorativo que se julgasse bonito ou apropriado para a ocasião. Por sua vez, abrir uma carta correspondia a tatear texturas; sentir perfumes; descobrir cores, formatos, segredos, mundos... uma carta era todo um universo, e o próprio ato de trocá-las já construía uma história.
O romantismo das cartas é, para mim, anterior ao século XIX. Foi nelas que descobri o primeiro portal para a nudez. A verdade do outro por trás da máscara.
E gostava de imaginar ainda o tempo dos envios a cavalo... escritos levados por dias, meses, estrada afora, pegando chuva, sol, vento, poeira... cada pó do caminho, mais marcas na história da carta.
Não faz muito tempo, contando tudo isto a um amigo, reparei um olhar estranho. "Sou romântica" - falei. "É, 'tô' vendo". O romantismo no tempo da urgência causa espanto. Quem, senão nós que margeamos este mundo, tem interesse em gastar horas a dedicar-se a uma carta, só para gastar mais horas a esperar pela resposta? Sou mesmo uma romântica inveterada.
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Certa feita, escrevi para Van Gogh. Havia assistido à peça Vincent; interpretada por Jefferson Coutinho. Vincent é um monólogo baseado nas cartas escritas por Van Gogh a seu irmão, Theo, postumamente compiladas e publicadas num livro entitulado "Cartas a Théo". Tendo-me apaixonado pela peça e sendo os livros de cartas uma paixão antiga, apressei-me a comprar o livro. Numa tarde cinza, lidas muitas daquelas cartas de Van Gogh, veio-me o desejo e a inspiração- e embora o desejasse, mas não tivesse uma caneta tinteiro -, servi-me de uma simples esferográfica e escrevi para Vincent.
desde então Vincent Van Gogh permanece em minha vida e, vez ou outra, trocamos confidências.

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